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Incentivo à inovação nas empresas

por Flávia Ribas

Investir em inovação e tecnologia oferece estímulos financeiros, incluindo incentivos fiscais e linhas de crédito específicas

Incentivo à inovação nas empresas

Roberto - Fundador da Angelus

Seja no consultório do dentista, numa ligação telefônica, num leito de hospital ou debaixo de um chuveiro quente, milhões de brasileiros podem estar diante dos avanços tecnológicos de empresas inovadoras, que apostaram e investiram em pesquisa para melhorar serviços e rendimentos.

Investir em inovação e tecnologia tem se tornado cada vez mais frequente devido a uma série de estímulos financeiros, incluindo incentivos fiscais, linhas de crédito específicas, recursos reembolsáveis e não reembolsáveis, redução de juros nos empréstimos e subvenção para a contratação de pesquisadores, entre outros.

O objetivo das ações integradas do governo federal e de órgãos governamentais nos Estados com agências de fomento e grupos financeiros é assegurar que o conhecimento de ciência e tecnologia produzido no Brasil não fique restrito a centros de pesquisa e universidades e possa se transformar em riquezas para o País, sendo desenvolvido em empresas.

O Prêmio Finep de Inovação teve papel pioneiro nesse panorama ao disseminar a importância da inovação tecnológica para o desenvolvimento do País. Desde 1998, quando foi criado, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) recebeu mais de 4,8 mil inscrições para a iniciativa, que destaca os esforços inovadores de empresas, institutos de pesquisa e organizações sociais.

Atualmente, são seis categorias: tecnologia social, inventor inovador, pequena empresa, média empresa, grande empresa e instituição de ciência e tecnologia. Em 2010, os vencedores da última edição do Prêmio dividem R$ 29 milhões em financiamentos pré-aprovados pela Finep, dos quais R$ 9 milhões são recursos não reembolsáveis. “As empresas não buscam apenas o valor financeiro do prêmio. Ele traz muita visibilidade e reconhecimento de um trabalho contínuo”, afirma Vera Marina da Cruz e Silva, coordenadora nacional da iniciativa na Finep.

Na mais recente edição do Prêmio Finep, cujos vencedores foram anunciados em dezembro de 2009, as pequenas empresas premiadas são exemplos claros de que os investimentos em inovação, pesquisa e desenvolvimento trazem retornos vantajosos e necessários para competir no mercado nacional e internacional.

Se o Brasil quiser entrar no mercado mundial com empresas competitivas, a inovação tem de ser um dos pilares”, diz Edson Ferman, gerente da Unidade de Acesso à Inovação e Tecnologia do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Pequenas empresas são o destaque

A Angelus Ciência e Tecnologia, vencedora nacional do Prêmio Finep 2009 na categoria pequena empresa, surgiu no Paraná, em 1994, com o dentista Roberto Alcântara. A insatisfação em ter de fazer no consultório procedimentos artesanais para peças de implantes levou o empresário a aperfeiçoar e criar produtos que garantissem mais rapidez e praticidade nos processos, melhorando os serviços aos pacientes. Um dos principais exemplos é o pino com fibra de vidro e carbono, utilizado em vários procedimentos, como implantes. A empresa se tornou líder de vendas de materiais odontológicos na América Latina e exporta produtos, como pinos para implantes e selantes, para mais de 60 países, incluindo Alemanha, Japão e França.

Desde a fundação da empresa, Roberto prima pela inovação, mas nem sempre houve recursos para investir. “Nos seis primeiros anos, os processos ainda eram simples e não garantiam muito valor agregado aos produtos da Angelus”, explica. Todo o faturamento era reinvestido na produção.

Em uma segunda etapa, o empresário começou a busca por parcerias nas universidades para melhorar a qualidade dos produtos. “Percorri o Brasil com o meu carro particular. Nem sempre fui bem recebido nas universidades. A maioria delas não tinha protocolos, nem o interesse de interagir com o setor privado”, lembra.

Em 2005, as portas dos institutos de pesquisa começaram a se abrir para a iniciativa da Angelus. A entrada em vigor da Lei de Inovação, em 2005, e da Lei do Bem, em 2006, deram o impulso. Com elas, surgiam pela primeira vez as possibilidades de obter incentivos fiscais e subvenções econômicas diretas às empresas para contratar mestres e doutores.

“O governo abriu os olhos para a importância dos investimentos em inovação. Para quem antes fazia reuniões com os pesquisadores nos corredores das universidades, chegamos a assinar oficialmente uma parceria com o Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), que foi publicado no Diário Oficial da União. Foi um momento simbólico”, recorda.

Hoje, o lançamento de novos produtos responde por mais de 20% dos investimentos da empresa, que teve um faturamento de R$ 10,3 milhões em 2009. “Projetamos um crescimento contínuo até 2013. Esperamos faturar 60 milhões de reais e transformarmos a Angelus em uma grande empresa”, revela o empresário.

A Angelus hoje conta com um departamento de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) próprio, detém sete patentes e conta com uma equipe de dez mestres e doutores. A empresa continua a interagir com centros de pesquisa e institutos privados de tecnologia. “Já estamos recebendo propostas de parceria dos Núcleos de Inovação Tecnológica de algumas universidades para pôr no mercado produtos já desenvolvidos por eles. Vamos estudar a proposta e em breve poderemos lançar os produtos”, entusiasma-se.

Disparidades regionais ainda são um desafio

A coordenadora nacional do Prêmio Finep, Vera Marina da Cruz e Silva, diz que ainda há uma discrepância entre as regiões brasileiras no que diz respeito à cultura da inovação. Um levantamento do Ministério da Ciência e Tecnologia referente ao ano fiscal de 2008 identificou que as empresas situadas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil utilizam com mais frequência os benefícios fiscais concedidos pela Lei nº 11.196, conhecida como “Lei do Bem”, que passou a vigorar em 2006.

A empresa vencedora regional do Prêmio Finep no Norte do País ilustra essa disparidade dos incentivos aos pequenos empresários. Com uma ideia inovadora, o casal de empresários Maria Aparecida Conde e Daniel Silva deixou a capital do Paraná, Curitiba, e instalou-se em Porto Velho (RO) em 2006, para abrir a própria empresa, a Oxigênio da Amazônia, especializada no aperfeiçoamento de usinas geradoras de oxigênio e gases medicinais, utilizados em hospitais e clínicas.

O casal sentiu um forte impacto na mudança de cultura quando se instalou em Rondônia. Ao invés de comercializar os tradicionais cilindros de oxigênio, optaram por vender uma usina compacta de produção de oxigênio e gases medicinais para hospitais de médio e grande porte. As usinas são movidas a eletricidade e reduzem os custos em até 90% para os estabelecimentos de saúde, que convencionalmente compram os gases envasados por grandes corporações internacionais.

“Hospitais que gastavam até 60 mil reais por mês com a aquisição de oxigênio passariam a gastar 8 mil reais com o nosso produto. Muita gente não acreditava. Ainda hoje, a relação comercial com um cliente pode durar meses antes de conseguirmos uma venda”, diz Maria Aparecida. O processo utilizado pela empresa permite a fabricação do oxigênio in loco, a partir da captação do ar. O equipamento, que tem o tamanho aproximado ao de duas geladeiras residenciais, é construído de acordo com as demanda da clínica ou do hospital e funciona quase como um pulmão, filtrando o ar e engarrafando o oxigênio e os gases medicinais. “Nosso diferencial é o gerenciamento do produto. Treinamos os usuários e qualquer pessoa pode ser capaz de utilizar a usina e resolver problemas simples, com um simples toque em uma tela sensível”, explica a empresária.

Recentemente, a Oxigênio da Amazônia incorporou uma engenheira química à sua equipe, o que abriu caminhos para que a empresa interagisse melhor com universidades, mas, durante os últimos três anos, a relação com institutos de pesquisa e de ciência e tecnologia foi quase inexistente. “Fizemos algumas tentativas frustradas, mas, em 2010, temos a perspectiva de difundir o caso da empresa em publicações científicas e alcançar mais espaço”, estima Maria Aparecida.

Para o especialista Edson Ferman, do Sebrae, é fundamental melhorar o acesso e o diálogo entre os institutos de ciência e tecnologia e o setor produtivo para transferência de conhecimento.

“O Brasil precisa olhar para as pequenas empresas e melhorar a infraestrutura de suporte para a ciência, tecnologia e inovação a fim de evitar a dispersão de conhecimento. Houve avanços nos últimos anos, mas o resultado tem que ser muito melhor”, afirma Ferman. No setor de tecnologia de informação, a inovação é pré-requisito fundamental.

Os jovens empreendedores da pequena indústria de softwares e eletrônicos Pctel Eletrônica, de Goiânia (GO), lançaram-se no mercado há sete anos quando o fundador, Alexandre Costa, foi enganado por um fornecedor durante uma negociação comercial feita por telefone.

Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento sempre colocaram a empresa à frente no mercado. Hoje, a Pctel presta serviço para clientes como Petrobras, Vale, Rede Globo e a Polícia Federal (PF), entre outros. Vencedora nacional na categoria pequena empresa da Finep em 2005, a Pctel foi escolhida como ganhadora da região Centro-Oeste em 2009. “O prêmio dá mais motivação mesmo para nós, que garantimos a inovação como a base de tudo”, explica o diretor de tecnologia da informação da empresa, Israel Alves.

Hoje, a Pctel tornou-se líder na produção e comercialização de gravadores telefônicos e lança dois produtos novos por ano, distribuídos para o Brasil inteiro e até para o exterior. A empresa já tem um setor próprio de pesquisa e desenvolvimento, com cinco profissionais. O faturamento alcançou R$ 3 milhões no último ano e, desde 2003, o crescimento tem sido de quase 100% ao ano.

Os vencedores de 2009

O Prêmio Finep não se restringe às pequenas empresas. Quando surgiu em 1998, a iniciativa premiava processo e produto inovadores. Hoje, seis categorias abrangem pequenas, médias e grandes empresas, além de institutos de ciência e tecnologia e organizações sociais.

Instituição de Ciência e Tecnologia – A Fundação Certi, instituto privado sem fins lucrativos de Santa Catarina, recebeu o prêmio por suas iniciativas em oito centros de referência em inovação tecnológica, que atende cerca de 800 empresas e instituições em todo o Brasil e em outros países da América do Sul. A fundação tem uma incubadora de base tecnológica e um parque de inovação em Florianópolis. Em 25 anos de trabalho, teve a experiência bem-sucedida no desenvolvimento das urnas eletrônicas e, mais recentemente, desenvolve soluções para a TV Digital.

Tecnologia Social – A Embrapa Clima Temperado, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária com sede no Rio Grande do Sul, recebeu o prêmio pelo projeto “Quintais Orgânicos de Frutas”, que já implantou mais de 910 pomares no Estado beneficiando mais de 30 mil famílias de assentamentos rurais, comunidades indígenas e quilombolas, além de escolas públicas. O objetivo é combater a desnutrição e resgatar a tradição de se manter um pomar no quintal de casa. A Embrapa fornece as mudas, os insumos para o solo e a vegetação quebra-vento para proteger a produção, além de fazer um acompanhamento quadrimestral das plantações.

Média Empresa – A vencedora dessa categoria foi a empresa paulista Opto Eletrônica S.A., que desenvolve, fabrica e comercializa equipamentos que combinam alta tecnologia óptica e eletrônica em três áreas: equipamentos para oftalmologia, equipamentos aeroespaciais e filmes antireflexo em lentes de óculos. Na empresa, o tempo gasto em mestrados e doutorados conta como hora trabalhada.

Grande Empresa – A Natura, líder no mercado brasileiro de cosméticos, fragrâncias e higiene pessoal, recebeu o prêmio da categoria. Somente em 2008, a Natura investiu R$ 103 milhões em pesquisa e desenvolvimento. Destaca-se na área de pesquisa por extrair a matéria-prima de forma sustentável e por não realizar testes em animais. A Natura Cosméticos vem recebendo financiamentos reembolsáveis e não reembolsáveis da Finep desde 2001.

Inventor Inovador – O catarinense Roberto Zagonel inventou um chuveiro elétrico que esquenta a água na medida certa. Há 14 anos no mercado, sua empresa Master Ducha Zagonel conta com um controle gradual de potência com cinco opções de temperatura, em vez das duas mais comuns – inverno e verão. É líder de vendas na região Sul e registra um crescimento de 5% a 10% ao ano.

Vencedores de 2009 na categoria Pequena Empresa – Regional

Região Sudeste: EITV Entretenimento e Interatividade para TV Digital (SP) – Fornece tecnologia completa de hardware, software, ferramentas e serviços específicos de TV digital e dos dispositivos móveis wireless. Pioneira no País na área de TV digital. Em 2006, o lançamento de uma estação de TV digital totalmente compatível com o padrão brasileiro fez com que a empresa ocupasse uma fatia do mercado para o qual não havia concorrentes.

Região Norte: Indústria e Comércio de Oxigênio da Amazônia (RO) – Sediada em Porto Velho, Rondônia, a Oxigênio da Amazônia é uma empresa especializada em usinas geradoras de oxigênio e ar medicinal, com alto nível de automação e tecnologia, totalmente digitalizadas, atendendo às normas nacionais e internacionais. Compete com empresas multinacionais na região Norte, e hoje alcançou clientes em todo o País.

Região Centro-Oeste: Pctel Eletrônica (GO) – A Pctel Eletrônica é uma indústria de eletrônicos e de softwares, especializada na associação entre serviço telefônico e gravadores digitais, com atuação também nas áreas de gravação de radiocomunicação e monitoramento cardíaco via celular. Pioneira por lançar o primeiro gravador telefônico no mundo com transmissão da voz por rede de internet. Todas as áreas da empresa contam com um forte investimento em pesquisa e desenvolvimento e parcerias com instituições de ensino.

Região Nordeste: DAccord Music Software (PE) – Desde 2001, a empresa cria produtos de aprendizado musical para computador, videogame e dispositivos móveis, como iPods e iPhones. Esses aplicativos facilitam o aprendizado de instrumentos, como violão, teclado e flauta. Atualmente, a linha de produtos da empresa conta com 15 itens que são usados por mais de 3 milhões de músicos em 85 países para os quais são exportados. Está localizada no Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco.

Região Sul: Angelus Indústria De Produtos Odontológicos (PR) – Também vencedora do prêmio nacional, a Angelus atua desde 1994 na fabricação de materiais inovadores na odontologia. Desenvolveu uma linha de pinos em fibras de vidro e carbono, mais resistentes e flexíveis do que os disponíveis no mercado até então. Com esse produto, tornou-se líder de vendas na América Latina. Cerca de 40% da produção é exportada para mais de 60 países. A empresa mantém um programa de auxílio à pesquisa na área odontológica, cujo objetivo é apoiar pesquisadores de universidades públicas e privadas que desenvolvam teses ou monografias ligadas à inovação do setor.